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sábado, 5 de outubro de 2013

Julia (VIII) - parte 3

Um sorriso de malícia veio então aos lábios do grande bárbaro. Ao mesmo tempo, a visão do passado parecia derreter. Tudo estremecia à mente do sirdanês até apagar por completo. A criança dos olhos de luto estava, enfim, morta... 


O Navegante das Falésias abraçou com força a pequena miraslaviana falecida. Jamais entenderia o quão cedo a morte visita os homens, pensou. Lágrimas umedeciam os ombros da garotinha. Embora ela houvesse corrido jovem aos braços dos deuses, o sirdanês agradecia-a eternamente por cooperar com a verdade dos recentes episódios. A vontade do triste timoneiro era agora única: enrolar-se em seu manto encardido e ali ficar até que os vermes decompusessem a aflição de seu cadáver. Entretanto, os últimos raios frouxos do Sol crepuscular furaram a cobertura de nuvens e iluminaram seu corpo arcado.

Assim, o Navegante ergueu o olhar e viu uma Princesa espectral invocando-o ao castelo. Toda a mente do homem esvaziou-se para dar lugar a uma quase esquecida centelha de esperança. Tentando ignorar ao máximo o sofrimento à sua volta, o capitão correu o mais rápido que pôde para o Oeste da cidade inabitada. Horas, ou dias, antes, Gulsandor havia trilhado aquele caminho; era de se esperar que o pior, tão-somente, teria acontecido. De fato: no lugar do estábulo real, havia uma indefinição de cinza. Exatamente o que os olhos da menina previra. Cavaleiros jaziam ao chão de sangue sem suas armas por perto - uma morte penosamente indigna. O terraço central, por sua vez, estava reduzido a ruínas. O Navegante esperava que ao menos as flores pudessem acalentar seu espírito. No entanto, nem mesmo o formoso jardim real resistira ao ataque.

O portão do enorme castelo estava escancarado. A noite começava a cair na cidade cingida pelo fogo. Era o nascer da Lua minguante, então, o que trazia as péssimas notícias. Passando por toda a desgraça real, o sirdanês encontrou força no desespero de suas pernas apenas para subir as escadas que conduziam aos aposentos de sua amada. O rosto de Julia, pensou, parecia se esvanecer de todo em suas lembranças. Ele, contudo, não poderia deixar isso acontecer. O Navegante sentiu, então, que toda a fortificação estava também completamente abandonada. O único som a ser ouvido era o eco de suas botas na fria pedra. O ambiente, fracamente iluminado, era cada vez mais tenebroso até o destino - constatou o pobre homem. O labirinto de quartos só não estava mais desolado do que o seu próprio pensar.

Qualquer faísca de bons sentimentos foi rapidamente apagada à visão do quarto revirado da delicada miraslaviana dos cabelos dourados. Os móveis estavam tombados ao chão; as cortinas, rasgadas; o vestuário, desaparecido. O grande espelho, inclusive, estava trincado. Muitas folhas de papel pisoteadas aderiam-se ao chão ou - senão - eram levadas pelo vento provindo das janelas entreabertas. Os olhos treinados do marinheiro vasculharam o aposento até pousarem num pequeno objeto próximo a seus pés. Ele verteu mais lágrimas de pesar ao perceber que tinha em mãos o pente de Julia. Alguns fios de cabelo ainda emaranhavam-se nos dentes do utensílio. O fato fez os lábios do amante dobrarem-se em um tímido sorriso. Teria ao menos uma lembrança física da Miraslávia, pensou.

Em seguida - sem mais raciocinar - ele aconchegou o pente em um dos bolsos de seu manto sórdido. Seus dedos, assim, tocaram a pequena boneca de trapo que lá repousava. Recordando-se das memórias há pouco vistas, o sirdanês tratou de ir à varanda do quarto. Fazendo isso, poderia - daquela posição privilegiada - contemplar a destruição da cidade. Além disso, se serviria de um momento para, talvez, absorver tudo o que sentiu nas últimas horas.

Apertando - com suavidade - a bonequinha nas mãos, o timoneiro debruçou os braços no parapeito de ferro do alpendre. O que primeiro seus olhos chorosos logo viram foi o céu. A Lua ia alta no firmamento; seu formato em lembrança de um alvo sorriso perdido na vasta negritude. O que era, afinal, da Princesa Julia da Miraslávia? Algo mais, todavia, chamaria a atenção dos poetas que um dia já conheceram o amor. Era uma noite sem estrelas.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Julia (VIII) - parte 2

Em meio a lágrimas, o castanho dos olhos da menina revelada avermelhava-se. O olhar dela - cada vez mais profundo - parecia recontar com triste precisão suas memórias. A garotinha arrastava o capitão para si com o negro de suas pupilas dilatadas. E, assim, o marinheiro pôde ver além das barreiras do tempo...


Os olhos da miraslaviana solitária remontaram a alegria natural daquele povo numa bela manhã que resplandecia ao Sol. À muralha, soldados da torre jogavam baralho em celebração à troca de turnos da manhã. Na feira, as maçãs frescas enfeitiçavam compradores. Carne de raposa era estendida, prestes a servir um bom freguês. Risadas enchiam a atmosfera, vindas talvez da pequena taverna que abrira suas portas mais cedo. Enquanto um menestrel iluminava o coração das jovens com sua ágil flauta, um pobre garoto era roubado no beco mais próximo. Já uns meninos - à praça - tomavam para si o conhecimento dos empoeirados livros da grande biblioteca. 

À proteção do estábulo real, homens preparavam seus cavalos para viagem. As esposas acotovelavam-se à entrada, disputando o lugar para primeiro beijarem seus amores. Um sentinela do castelo agradecia por enfim se ver livre da longa noite insone e se despedia de seu companheiro de vigia. Criados preparavam o desjejum - cantarolando alegres cantigas do campo. Ao salão do trono, o Rei, em seu tédio, discutia motivadoras questões diplomáticas com seu Grão-Conselheiro. O Príncipe - numa das muitas varandas do castelo - praticava seu alaúde, provavelmente com intenções de cortejar uma das filhas do Barão de Montiguano.

Julia, sozinha, em seu quarto. A Princesa vestia um vestido simples verde - mais claro que o brilho de sua íris. Ela penteava seus longos cabelos dourados - que não eram nem loiros, nem castanhos. Seu grande espelho emoldurado com madeira de mogno refletia um campo de trigo maduro iluminado pelo Sol. A jovem assoviava uma canção do mar aprendida há pouco tempo, no Luzes dos Ancestrais. Ela tentava, também, decidir se deveria trançar os fios ou meramente alisá-los. Afinal, lembrou, fazia mais de um ano que não mandava apará-los e, agora, os cabelos passavam-lhe da cintura.

O pensamento de Julia foi interrompido com um pulsar da imagem que o Navegante via através dos olhinhos amargurados. O homem do mar teve sua mente transportada para o alto da grande cidade. Acompanhando tal movimento, as memórias - bem como toda aquela alegria - enevoaram-se. Foi então que uma flecha em chamas rompeu a calmaria das brumas para atingir o telhado de palha do estábulo. Com isso, o local fora rapidamente reduzido a uma grande fogueira, e os cavalos, assustados, fugiram - atropelando qualquer obstáculo à frente.

À medida que pessoas e guardas reais eram atraídos ao fogo e a fumaça escura ganhava altitude, mais flechas caíam do céu. Em um primeiro momento, uma ou duas delas furavam o chão duro da cidade ou causavam uma pequena comoção. Depois, saraivadas de fogo pegaram de surpresa a população - envolvendo os miraslavianos nos lençóis do pavor.

Assim, à luz do desconhecido, a cidade fora engolfada em chamas. Muitas casas já caíam ao chão - reduzidas a destroços em brasa. Cada vez mais corpos carbonizados eram espalhados por toda a cidade. Mães desesperadas choravam a perda de seus filhos, ou vasculhavam os quatro cantos de seu restrito mundo à procura de suas crianças. Cavaleiros agrupavam-se ao mando da Família Real quando um brado de guerra - ouvido por toda a Miraslávia - penetrou a fumaça de fuligem. Até mesmo os ancestrais do Lago despertaram de seu sono transcendental. Temendo o pior, o fantasmagórico Rei Mirus tratou de rapidamente empunhar sua espada etérea.

Não havia mais soldados vivos às torres da muralha para assistir à segunda parte de um ataque minuciosamente planejado. Chegando aos muros, bárbaros das montanhas escalavam-nos como formigas. Outros deles derrubavam os portões a leste e a norte, abrindo espaço para a entrada de hordas intermináveis de guerreiros. Seus machados de lâmina dupla dilaceravam o que viam pela frente - fosse vivo ou não. Largos eram seus escudos redondos. Além dos machados, infinitas eram suas armas - desde lanças ao terror. Cobrindo o corpo, os bárbaros encapuzados traziam grossos casacos de pelo escurecidos de sangue.

Da confusão de gritos, mortes, chamas, exaspero e ira, um dos inimigos destacou-se. Era ele mais alto que todos e, também, mais robusto. Seus passos seguiam violentos, porém graciosos e experientes. De vestimenta, bastavam para o homem calças e botas. Sua pele morena era adornada de inúmeras cicatrizes opacas. Tatuagens tribais desenhavam toda sua caixa torácica e costas. As mãos que empunhavam uma espada bastante larga e longa também eram desenhadas - bem como os braços amplos. Já seus cabelos negros, presos em um rabo, chicoteavam o ar. A expressão refletida nos olhos castanhos do bárbaro era de um contentamento singular, misturado à perversão única do gelo das montanhas. Os camponeses estremeciam ao seu nome: Gulsandor, o Grande Urso.

Chegando na praça central, o homem acertou um golpe ao alto da cabeça de um morador qualquer que lá estava - espalhando mais sangue em suas botas. Um chute seu jogou longe o corpo inerte, afastando-o de seu caminho. Após a demonstração de força, o Navegante - através do espelho das memórias - sentiu o olhar de Gulsandor mirar o Oeste. O que ele via, provavelmente, era o imponente castelo que ao alto se erguia.

Um sorriso de malícia veio então aos lábios do grande bárbaro. Ao mesmo tempo, a visão do passado parecia derreter. Tudo estremecia à mente do sirdanês até apagar por completo. A criança dos olhos de luto estava, enfim, morta. 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Julia (VIII) - parte 1

A quilha do "Águia do Norte" cortava as ondas aos cristais do Leuceu. Uma vez mais - tanto tempo depois - a embarcação aconchegava-se à sombra das grandes falésias da Miraslávia. O capitão, distraído com a chuva torrencial de junho, ordenou o recolhimento das velas. Os remos começaram a cortar as águas, enquanto o odor de algas atingia as narinas do Navegante - poluindo-lhe em parte a boa vontade. Percebia-se estar a areia, compactada, pontilhada dos seres verde-escuros. Tempestades incessantes haviam drenado a formosidade daquele memorável litoral, pensou o timoneiro. O pingar diminuto das nuvens parecia-lhe questionar - com toda o atrevimento da Natureza - os motivos do regresso.

Debruçado na amurada a bombordo, o Navegante sentiu-se preencher de uma estranha aflição. Seus olhos perscrutavam todo o litoral, em busca de qualquer movimento por parte dos miraslavianos. Estavam eles, todavia, lá sozinhos. Ou quase sozinhos - visto que algo mais chamou a atenção do sirdanês. Incrédulo, o timoneiro constatou que uma jovem esperava-os. Era ela aos pés do paredão escarpado, esvoaçando suas saias róseas à areia cinzenta. Julia sorria-lhe, como sempre; sua voz adocicada preenchendo o pensar do pobre homem. Ele, por sua vez, tratou de pedir para o marujo ao mastro uma confirmação do que via. Afinal, ser ele iludido por sua própria mente havia se tornado quase um hábito nos últimos tempos. Algo bastante incômodo, agora percebia.

Quando o marujo desmentiu sua visão, o capitão sentiu a força esvair-se de suas pernas. Então nada ali havia, senão a chegada de alguns forasteiros liderados por um marinheiro apaixonado. Naquele momento, os intrusos beiravam a areia, e cinco homens adentraram a água para que a embarcação fosse ancorada. O "Águia do Norte" enfim se fez livre da dura jornada que arrastara suas madeiras toda aquela distância. Tendo descido do barco, o Navegante, sem pestanejar, prendeu a bainha de sua cimitarra às costas e correu falésia acima. De lá, sua ansiosidade mostrou-lhe o que homem algum gostaria de ver. Ao longe, sobressaindo-se ao mau tempo, toda a cidade era fumaça. O arauto de uma decisão ousada fora o fogo que transformava as casas miraslavianas em brasa.

A visão de Julia - presa à mente do timoneiro - desmoronava com o desespero que preenchia aquela alma insegura. O marinheiro limitou-se a chamar seus compatriotas com um assobio apressado. Em seguida, correu o mais rápido que pôde em direção aos grandes portões da cidade - ou o que deles restava. O campo girava aos seus pés, em convulsão provocada pelo farfalhar dos arbustos. A face do Rei penetrava a cabeça do Navegante. O Príncipe lançava-lhe olhares furiosos, bem como o fantasma do grão-conselheiro. Em sobreposição a eles, havia a infame lontra loura - cujas risadas drenavam toda a esperança do sirdanês.

Ao chegar à cidade, o velho capitão, lasso, apoiou-se nos escombros dos portões. O crepúsculo atingia as montanhas enquanto a chuva diminuía até cessar. A palpitação do marinheiro misturava-se à leve névoa de fuligem que encobria a região. Por alguns minutos, qualquer tipo de estímulo parecia vulgar àqueles olhos que recusavam ver além dos paralelepípedos manchados de cinza. Eis que, ao longe, um leve pranto fazia-se ouvir. O Navegante então ergueu o olhar atento e enfim se deparou com o mais vivo dos pesadelos. Tudo era tristeza. De onde estava até a base do castelo, muitas das construções não mais existiam. A capital da Miraslávia - outrora bela - estava reduzida a uma confusão de materiais em brasa e corpos ensanguentados.

O sirdanês caminhou na direção dos destroços de onde presumia vir o choro, vinte metros adiante. No caminho, sentiu suas botas pisarem algo macio. Esparramada ao chão da rua principal estava uma boneca de trapo encardida, cujos olhos de botão imploravam por companhia. O vermelho de sangue coagulado adornava o vestidinho da diminuta figura. O homem acolheu-a nas mãos e tratou de retirar a poeira de seus negros cabelos entrançados. À visão daquele brinquedo - que cabia inteiro em seu palmo - o Navegante pôde tão-somente verter uma lágrima em consideração ao acontecido. Ali permaneceu no silêncio da alma, até que ouviu aumentar o pranto. À sua direita, florescendo das ruínas de uma casa, viu então uma mão infante macérrima. O antebraço oculto abanava o ar em desespero, como para se livrar do claustro.

O timoneiro aconchegou a boneca no bolso de seu manto para poder colher a criança que via. A criatura soterrada, agora libertada, foi colocada no chão úmido. Seus olhos iam baixos, entretanto, quando o Navegante ajoelhou-se à sua altura, as estrelas foram alinhadas. O sirdanês - como num relance - mergulhou no fogo que antes cortara o coração da Miraslávia. Em meio a lágrimas, o castanho dos olhos da menina revelada avermelhava-se. O olhar dela - cada vez mais profundo - parecia recontar com triste precisão suas memórias. A garotinha arrastava o capitão para si com o negro de suas pupilas dilatadas. E, assim, o marinheiro pôde ver além das barreiras do tempo.