Um sorriso de malícia veio então aos lábios do grande bárbaro. Ao mesmo tempo, a visão do passado parecia derreter. Tudo estremecia à mente do sirdanês até apagar por completo. A criança dos olhos de luto estava, enfim, morta...
O Navegante das Falésias abraçou com força a pequena miraslaviana falecida. Jamais entenderia o quão cedo a morte visita os homens, pensou. Lágrimas umedeciam os ombros da garotinha. Embora ela houvesse corrido jovem aos braços dos deuses, o sirdanês agradecia-a eternamente por cooperar com a verdade dos recentes episódios. A vontade do triste timoneiro era agora única: enrolar-se em seu manto encardido e ali ficar até que os vermes decompusessem a aflição de seu cadáver. Entretanto, os últimos raios frouxos do Sol crepuscular furaram a cobertura de nuvens e iluminaram seu corpo arcado.
Assim, o Navegante ergueu o olhar e viu uma Princesa espectral invocando-o ao castelo. Toda a mente do homem esvaziou-se para dar lugar a uma quase esquecida centelha de esperança. Tentando ignorar ao máximo o sofrimento à sua volta, o capitão correu o mais rápido que pôde para o Oeste da cidade inabitada. Horas, ou dias, antes, Gulsandor havia trilhado aquele caminho; era de se esperar que o pior, tão-somente, teria acontecido. De fato: no lugar do estábulo real, havia uma indefinição de cinza. Exatamente o que os olhos da menina previra. Cavaleiros jaziam ao chão de sangue sem suas armas por perto - uma morte penosamente indigna. O terraço central, por sua vez, estava reduzido a ruínas. O Navegante esperava que ao menos as flores pudessem acalentar seu espírito. No entanto, nem mesmo o formoso jardim real resistira ao ataque.
O portão do enorme castelo estava escancarado. A noite começava a cair na cidade cingida pelo fogo. Era o nascer da Lua minguante, então, o que trazia as péssimas notícias. Passando por toda a desgraça real, o sirdanês encontrou força no desespero de suas pernas apenas para subir as escadas que conduziam aos aposentos de sua amada. O rosto de Julia, pensou, parecia se esvanecer de todo em suas lembranças. Ele, contudo, não poderia deixar isso acontecer. O Navegante sentiu, então, que toda a fortificação estava também completamente abandonada. O único som a ser ouvido era o eco de suas botas na fria pedra. O ambiente, fracamente iluminado, era cada vez mais tenebroso até o destino - constatou o pobre homem. O labirinto de quartos só não estava mais desolado do que o seu próprio pensar.
Qualquer faísca de bons sentimentos foi rapidamente apagada à visão do quarto revirado da delicada miraslaviana dos cabelos dourados. Os móveis estavam tombados ao chão; as cortinas, rasgadas; o vestuário, desaparecido. O grande espelho, inclusive, estava trincado. Muitas folhas de papel pisoteadas aderiam-se ao chão ou - senão - eram levadas pelo vento provindo das janelas entreabertas. Os olhos treinados do marinheiro vasculharam o aposento até pousarem num pequeno objeto próximo a seus pés. Ele verteu mais lágrimas de pesar ao perceber que tinha em mãos o pente de Julia. Alguns fios de cabelo ainda emaranhavam-se nos dentes do utensílio. O fato fez os lábios do amante dobrarem-se em um tímido sorriso. Teria ao menos uma lembrança física da Miraslávia, pensou.
Em seguida - sem mais raciocinar - ele aconchegou o pente em um dos bolsos de seu manto sórdido. Seus dedos, assim, tocaram a pequena boneca de trapo que lá repousava. Recordando-se das memórias há pouco vistas, o sirdanês tratou de ir à varanda do quarto. Fazendo isso, poderia - daquela posição privilegiada - contemplar a destruição da cidade. Além disso, se serviria de um momento para, talvez, absorver tudo o que sentiu nas últimas horas.
Apertando - com suavidade - a bonequinha nas mãos, o timoneiro debruçou os braços no parapeito de ferro do alpendre. O que primeiro seus olhos chorosos logo viram foi o céu. A Lua ia alta no firmamento; seu formato em lembrança de um alvo sorriso perdido na vasta negritude. O que era, afinal, da Princesa Julia da Miraslávia? Algo mais, todavia, chamaria a atenção dos poetas que um dia já conheceram o amor. Era uma noite sem estrelas.
Assim, o Navegante ergueu o olhar e viu uma Princesa espectral invocando-o ao castelo. Toda a mente do homem esvaziou-se para dar lugar a uma quase esquecida centelha de esperança. Tentando ignorar ao máximo o sofrimento à sua volta, o capitão correu o mais rápido que pôde para o Oeste da cidade inabitada. Horas, ou dias, antes, Gulsandor havia trilhado aquele caminho; era de se esperar que o pior, tão-somente, teria acontecido. De fato: no lugar do estábulo real, havia uma indefinição de cinza. Exatamente o que os olhos da menina previra. Cavaleiros jaziam ao chão de sangue sem suas armas por perto - uma morte penosamente indigna. O terraço central, por sua vez, estava reduzido a ruínas. O Navegante esperava que ao menos as flores pudessem acalentar seu espírito. No entanto, nem mesmo o formoso jardim real resistira ao ataque.
O portão do enorme castelo estava escancarado. A noite começava a cair na cidade cingida pelo fogo. Era o nascer da Lua minguante, então, o que trazia as péssimas notícias. Passando por toda a desgraça real, o sirdanês encontrou força no desespero de suas pernas apenas para subir as escadas que conduziam aos aposentos de sua amada. O rosto de Julia, pensou, parecia se esvanecer de todo em suas lembranças. Ele, contudo, não poderia deixar isso acontecer. O Navegante sentiu, então, que toda a fortificação estava também completamente abandonada. O único som a ser ouvido era o eco de suas botas na fria pedra. O ambiente, fracamente iluminado, era cada vez mais tenebroso até o destino - constatou o pobre homem. O labirinto de quartos só não estava mais desolado do que o seu próprio pensar.
Qualquer faísca de bons sentimentos foi rapidamente apagada à visão do quarto revirado da delicada miraslaviana dos cabelos dourados. Os móveis estavam tombados ao chão; as cortinas, rasgadas; o vestuário, desaparecido. O grande espelho, inclusive, estava trincado. Muitas folhas de papel pisoteadas aderiam-se ao chão ou - senão - eram levadas pelo vento provindo das janelas entreabertas. Os olhos treinados do marinheiro vasculharam o aposento até pousarem num pequeno objeto próximo a seus pés. Ele verteu mais lágrimas de pesar ao perceber que tinha em mãos o pente de Julia. Alguns fios de cabelo ainda emaranhavam-se nos dentes do utensílio. O fato fez os lábios do amante dobrarem-se em um tímido sorriso. Teria ao menos uma lembrança física da Miraslávia, pensou.
Em seguida - sem mais raciocinar - ele aconchegou o pente em um dos bolsos de seu manto sórdido. Seus dedos, assim, tocaram a pequena boneca de trapo que lá repousava. Recordando-se das memórias há pouco vistas, o sirdanês tratou de ir à varanda do quarto. Fazendo isso, poderia - daquela posição privilegiada - contemplar a destruição da cidade. Além disso, se serviria de um momento para, talvez, absorver tudo o que sentiu nas últimas horas.
Apertando - com suavidade - a bonequinha nas mãos, o timoneiro debruçou os braços no parapeito de ferro do alpendre. O que primeiro seus olhos chorosos logo viram foi o céu. A Lua ia alta no firmamento; seu formato em lembrança de um alvo sorriso perdido na vasta negritude. O que era, afinal, da Princesa Julia da Miraslávia? Algo mais, todavia, chamaria a atenção dos poetas que um dia já conheceram o amor. Era uma noite sem estrelas.