sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Julia (VIII) - parte 2

Em meio a lágrimas, o castanho dos olhos da menina revelada avermelhava-se. O olhar dela - cada vez mais profundo - parecia recontar com triste precisão suas memórias. A garotinha arrastava o capitão para si com o negro de suas pupilas dilatadas. E, assim, o marinheiro pôde ver além das barreiras do tempo...


Os olhos da miraslaviana solitária remontaram a alegria natural daquele povo numa bela manhã que resplandecia ao Sol. À muralha, soldados da torre jogavam baralho em celebração à troca de turnos da manhã. Na feira, as maçãs frescas enfeitiçavam compradores. Carne de raposa era estendida, prestes a servir um bom freguês. Risadas enchiam a atmosfera, vindas talvez da pequena taverna que abrira suas portas mais cedo. Enquanto um menestrel iluminava o coração das jovens com sua ágil flauta, um pobre garoto era roubado no beco mais próximo. Já uns meninos - à praça - tomavam para si o conhecimento dos empoeirados livros da grande biblioteca. 

À proteção do estábulo real, homens preparavam seus cavalos para viagem. As esposas acotovelavam-se à entrada, disputando o lugar para primeiro beijarem seus amores. Um sentinela do castelo agradecia por enfim se ver livre da longa noite insone e se despedia de seu companheiro de vigia. Criados preparavam o desjejum - cantarolando alegres cantigas do campo. Ao salão do trono, o Rei, em seu tédio, discutia motivadoras questões diplomáticas com seu Grão-Conselheiro. O Príncipe - numa das muitas varandas do castelo - praticava seu alaúde, provavelmente com intenções de cortejar uma das filhas do Barão de Montiguano.

Julia, sozinha, em seu quarto. A Princesa vestia um vestido simples verde - mais claro que o brilho de sua íris. Ela penteava seus longos cabelos dourados - que não eram nem loiros, nem castanhos. Seu grande espelho emoldurado com madeira de mogno refletia um campo de trigo maduro iluminado pelo Sol. A jovem assoviava uma canção do mar aprendida há pouco tempo, no Luzes dos Ancestrais. Ela tentava, também, decidir se deveria trançar os fios ou meramente alisá-los. Afinal, lembrou, fazia mais de um ano que não mandava apará-los e, agora, os cabelos passavam-lhe da cintura.

O pensamento de Julia foi interrompido com um pulsar da imagem que o Navegante via através dos olhinhos amargurados. O homem do mar teve sua mente transportada para o alto da grande cidade. Acompanhando tal movimento, as memórias - bem como toda aquela alegria - enevoaram-se. Foi então que uma flecha em chamas rompeu a calmaria das brumas para atingir o telhado de palha do estábulo. Com isso, o local fora rapidamente reduzido a uma grande fogueira, e os cavalos, assustados, fugiram - atropelando qualquer obstáculo à frente.

À medida que pessoas e guardas reais eram atraídos ao fogo e a fumaça escura ganhava altitude, mais flechas caíam do céu. Em um primeiro momento, uma ou duas delas furavam o chão duro da cidade ou causavam uma pequena comoção. Depois, saraivadas de fogo pegaram de surpresa a população - envolvendo os miraslavianos nos lençóis do pavor.

Assim, à luz do desconhecido, a cidade fora engolfada em chamas. Muitas casas já caíam ao chão - reduzidas a destroços em brasa. Cada vez mais corpos carbonizados eram espalhados por toda a cidade. Mães desesperadas choravam a perda de seus filhos, ou vasculhavam os quatro cantos de seu restrito mundo à procura de suas crianças. Cavaleiros agrupavam-se ao mando da Família Real quando um brado de guerra - ouvido por toda a Miraslávia - penetrou a fumaça de fuligem. Até mesmo os ancestrais do Lago despertaram de seu sono transcendental. Temendo o pior, o fantasmagórico Rei Mirus tratou de rapidamente empunhar sua espada etérea.

Não havia mais soldados vivos às torres da muralha para assistir à segunda parte de um ataque minuciosamente planejado. Chegando aos muros, bárbaros das montanhas escalavam-nos como formigas. Outros deles derrubavam os portões a leste e a norte, abrindo espaço para a entrada de hordas intermináveis de guerreiros. Seus machados de lâmina dupla dilaceravam o que viam pela frente - fosse vivo ou não. Largos eram seus escudos redondos. Além dos machados, infinitas eram suas armas - desde lanças ao terror. Cobrindo o corpo, os bárbaros encapuzados traziam grossos casacos de pelo escurecidos de sangue.

Da confusão de gritos, mortes, chamas, exaspero e ira, um dos inimigos destacou-se. Era ele mais alto que todos e, também, mais robusto. Seus passos seguiam violentos, porém graciosos e experientes. De vestimenta, bastavam para o homem calças e botas. Sua pele morena era adornada de inúmeras cicatrizes opacas. Tatuagens tribais desenhavam toda sua caixa torácica e costas. As mãos que empunhavam uma espada bastante larga e longa também eram desenhadas - bem como os braços amplos. Já seus cabelos negros, presos em um rabo, chicoteavam o ar. A expressão refletida nos olhos castanhos do bárbaro era de um contentamento singular, misturado à perversão única do gelo das montanhas. Os camponeses estremeciam ao seu nome: Gulsandor, o Grande Urso.

Chegando na praça central, o homem acertou um golpe ao alto da cabeça de um morador qualquer que lá estava - espalhando mais sangue em suas botas. Um chute seu jogou longe o corpo inerte, afastando-o de seu caminho. Após a demonstração de força, o Navegante - através do espelho das memórias - sentiu o olhar de Gulsandor mirar o Oeste. O que ele via, provavelmente, era o imponente castelo que ao alto se erguia.

Um sorriso de malícia veio então aos lábios do grande bárbaro. Ao mesmo tempo, a visão do passado parecia derreter. Tudo estremecia à mente do sirdanês até apagar por completo. A criança dos olhos de luto estava, enfim, morta. 

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