O "Águia do Norte" adentrava lentamente a costa miraslaviana. O capitão, da popa, ordenou à tripulação que as velas fossem recolhidas. Enquanto os marinheiros apanhavam os remos, apoiou o corpo sobre a amurada a bombordo, para ter uma visão melhor do terreno a que se destinavam.
O litoral de Miraslávia, era, no mínimo, diferente de tudo aquilo que o Navegante havia visto. O mar era cristalino, de aspecto azulado, e a areia era muito clara - e reluzia à luz do intenso Sol da aurora de abril. Dez metros praia adentro, falésias se erguiam. Embora o paredão cinzento e irregular fosse bastante alto, a população local havia criado caminhos sinuosos à sua volta - eliminando o caráter árduo da subida.
Maravilhado com o que via, o timoneiro retornou à sua posição ao leme. Saboreava aquele fim de viagem ao odor de sal, sentindo aos pés a quilha cortando as ondas. Então, o marujo ao mastro - mais por costume do que por cautela - o informou da presença de um pequeno grupo de pessoas ao alto das falésias.
Preocupado, pediu mais informações ao homem. Como há tempos o povo de Sirdan não fazia contato com os miraslavianos, poderiam ser muito bem recebidos com animosidade. Foi, no entanto, surpreendido ao saber que as pessoas posicionadas ali eram nobres, cortejados por seus súditos. Segundo seu informante, dez eram os cortesãos, que circundavam dois homens e uma mulher. Um dos homens era mais jovem, enquanto o outro era um senhor que portava barbas longas e grisalhas. A jovem parecia animada com a novidade e saltitava, balançando seu vestido róseo ao vento matutino.
No momento em que a quilha atingiu a areia, a tripulação guardou os remos e logo todos saltaram à areia, para auxiliar no ancoramento do "Águia do Norte". Ainda atordoado pelo fato de o próprio Rei, Príncipe e Princesa receberem os estrangeiros, o Navegante conduziu seus homens pela subida da falésia. Ao alto, logo os miraslavianos se juntaram aos recém-chegados.
Após as primeiras formalidades, caminhavam agora numa campina verde que conduzia à cidade. O Rei explicava que há muito não recebiam navios mercantes. Mesmo assim, estava lisonjeado com a iniciativa do Navegante e seus homens. O capitão do "Águia do Norte" demonstrou apreço pela beleza da região. Acrescentara, também, que ele e sua tripulação decerto não se arrependeriam daquela longa viagem.
A primeira noite fora de festa. Os nobres de Miraslávia pareciam todos serem muito simpáticos com aqueles homens do mar. Após conversas sobre as aventuras que as águas salgadas lhes rendiam, o Navegante sentou-se sozinho ao bar. Degustando uma bebida de maçã típica da região, pôs-se a observar a ocasião. A atmosfera do festejar era acompanhada por um leve aroma de castanhas gratinadas. De onde estava, o capitão do "Águia do Norte" podia ver alguns de seus amigos se enamorando com belas jovens miraslavianas. Logo ao lado, um grupo animado jogava dardos e olhadelas interessadas aos casais. Músicos tocavam seus alaúdes para um pequeno público - o tipo de música sempre muito agradável. E, ao longe, estava a família real.
O Rei se entretinha numa conversa com seu conselheiro. Já o Príncipe olhava diretamente para os músicos, ignorando os que o rodeavam. A Princesa, em pé, se divertia com o que suas damas tinham a contar. O capitão, distraído, repousou os olhos na jovem. Julia era seu nome, conforme haviam sido apresentados mais cedo. Portava um longo vestido pomposo, violeta. Embora não fosse possível saber a cor de seus olhos daquela posição, podia notar que seus cabelos eram loiros. Ou melhor, dourados, pensou. Dourados como um telhado de palha que resplandece à luz da manhã no campo.
A cada risada, Julia sacudia seus longos cabelos, fazendo com que a mente do Navegante recriasse a imagem de uma plantação de trigo acometida por um vento intermitente. Sua pele era alva e, certamente, sedosa. Não parecia ser muito alta, e seus ombros eram largos. Enquanto observava, Julia virou-se e seus olhos encontraram os do Navegante. A expressão da jovem foi de surpresa e contentamento e, assim, pôs-se a andar com determinação ao encontro do timoneiro.
O expressar da princesa levou o pensamento do Navegante a uma lagoa cristalina esverdeada, bordejada por formações rochosas. Lembrou-se de sua infância, quando nadava com amigos e primos em uma bela cachoeira próxima ao vilarejo em que havia nascido. Verdes eram os olhos da jovem. Verdes como as folhas de um carvalho após uma noite de orvalho.
Observar aquela beleza excêntrica transformou o coração do capitão em um mar tempestuoso - cujas ondas ferozes engoliam para as profundezas barcos de guerra inteiros. Sabia: aquela noite seria inigualável. E a viagem, eterna em sua mente.
Observar aquela beleza excêntrica transformou o coração do capitão em um mar tempestuoso - cujas ondas ferozes engoliam para as profundezas barcos de guerra inteiros. Sabia: aquela noite seria inigualável. E a viagem, eterna em sua mente.