terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Julia (II)

Por um momento, o sirdanês pôs-se a pensar em toda a ocasião, ali sentado ao bar de uma das tavernas mais famosas de todo o Mar Leuceu. Jamais - em apenas um dia - tantas belas imagens haviam lhe assomado. Sua mente ainda era inundada pela sensação de admirar a costa miraslaviana. Havia sentido o prazer típico de quando ele e sua tripulação cumpriam mais uma jornada. Dessa vez, porém, havia também algo diferente: uma espécie de pertencimento ao lugar. Parecia-lhe que o destino havia o levado para lá, em segurança.

Observar Julia confirmava cada mais aquele sentimento curioso. Em sua experiência de marinheiro, era natural que o Navegante houvesse conhecido muitas mulheres - desde prostitutas lacônicas a simpáticas rainhas. Contato algum seu, bem como suas amantes, equiparavam-se à imagem de Julia, entretanto. O capitão sentia o estômago embrulhar quando pensava na quase certeza de já conhecer a jovem há muito mais tempo. Sentia que aquela formosidade inesquecível já havia sido admirada por outras de suas vidas.

Assim, envolta em um véu de mistérios, Julia alcançou o homem. A princesa limitou-se a um amplo sorriso e um cumprimento que exalava grande interesse. Ao sentar-se, os dois se viraram para que mantivessem a conversa um fitando os olhos do outro. O coração retumbante do Navegante fazia-o lembrar infindáveis desventuras do "Águia do Norte" em resistência ao impiedoso Cabo dos Relâmpagos. Sua mente fazia soar o alarme da sobrecarga, mas, mesmo assim, o homem - em serenidade quase assombrosa - não desviou o olhar.

A menina - alheia a todo aquele desarranjo interno de seu colega - logo comentou que mágica devia ser a vida do Navegante até então. Em seus quase 20 anos, conhecia pouco mais do que sua cidade natal e - mesmo assim - seu cavalo fora o único meio de viagem. O timoneiro mais uma vez lembrou que deveras bastante havia visto. À Julia, como havia demonstrado ao Rei, mostrou seu grande interesse por aquelas terras - usando-se de um breve sorriso. Reunir um povo simpático e afetivo a uma bela natureza, que dispunha de tanta boa comida, podia ser uma tarefa mais delicada do que parecia. Incomuns eram os que conseguiam tamanha façanha. A dama riu e acrescentou que muitos homens do mar costumavam criar grande apreço pela comida da Miraslávia - e tinha o fato como curioso.

Outros marinheiros, como ele, já haviam então sido da atenção de Julia - e ceado ante sua euforia. No seu estado de espírito, seus olhos impassíveis imersos no verde dos olhos da jovem, poderia facilmente se desconcertar ali mesmo. Contudo, o passado - muito menos o futuro - importava no momento. Julia parecia ter a capacidade de congelar o tempo com seu olhar. Com isso, mais uma vez o Navegante manteve-se plácido como uma árvore balouçando ao vento da primavera. 

A noite, então, passou conforme conversavam de forma tímida, porém calorosa. Os companheiros não haviam se estendido tanto nos assuntos. Guiados inicialmente pela culinária, recordaram juntos as habilidades únicas dos povos espalhados pela imensidade da Natureza - Mãe de todos. Impressionaram-se com os queijos das tribos montanhesas; suas mentes deliciariam-se com as sopas sirdanesas; suas línguas encharcaram-se com as lembranças das tortas da Miraslávia; o enlevo laçou-os trazendo à memória as carnes do Leste.

Muitas foram as ocasiões em que o Navegante lembrou-se dos sorrisos de Julia. Jamais, no entanto, se desvencilhava das névoas que envolviam aquela noite. Nunca soube se, de fato, haviam conversado até quase o alvorecer. Não podia também ter certeza se chegaram a apontar tantas tradições de cozinha - ou se haviam versado apenas sobre uma cultura em especial. Mesmo assim, tinha certeza, sua afeição pela princesa não havia se perdido - e seus encontros continuaram.

Seus compatriotas de Sirdan um dia atirariam-lhe gargalhadas por aquilo: toda uma madrugada em prosa com a princesa de um grande Reino, deliciando-se com imagens mentais dos mais variados acepipes. O capitão do "Águia do Norte" não se importava com mais nada. Julia o havia recepcionado com um zelo inesquecível e, assim, fazia questão de vê-lo já no entardecer do seguinte dia. Traria uma torta, a menina. De maçãs - prometia.