sábado, 20 de julho de 2013

Julia (VII)

O tímido Sol finalmente apareceu em meio às esparsas nuvens. O "Águia do Norte" sacolejava com afinco no transitar das ondas, nauseando sua tripulação. O céu enfim ratificava um descanso aos sirdaneses, após desgastantes horas de trabalho intenso ao convés naquele primeiro mês de viagem. Seu capitão vasculhava os ares e revia o astrolábio - preocupado. A tempestade do Leuceu havia afastado-os numa abertura de cinco graus para o Leste, em relação ao arco habitual rumo Sirdan. Isso implicaria a perda de alguns dias para reparo da viagem, já que o vento levara a embarcação muitas milhas adiante no novo caminho. Ademais, o timoneiro calculava estar o "Águia do Norte" próximo da área de influência dos piratas de Ogar. Um encontro bastava para ser abatida a ave - como lembravam-lhe as lendas dos mares.

Os olhos de seu imediato, o qual tinha as costas apoiadas na figura de proa, jorravam consternação. Anos de experiência indicavam ao Navegante que suas mentes estavam em ressonância, e que, assim, ambos reconheciam o perigo de ali estarem. Tal situação fez com que o pobre sirdanês recordasse por um momento os episódios trilhados com seu antigo amigo. Sua mente retomou, logo, a feita em que os meninos haviam se encontrado pela primeira vez.

Fora numa expedição às Montanhas, uma das primeiras viagens militares do jovem Navegante. Ele passava por corredores de casas de uma das vilas saqueadas, quando avistara - às sombras de um beco - uma pequena figura encolhida em seus cobertores. Aparentava ter uns dez anos a menos do que o marinheiro, mas a sabedoria de um ancião. Os cabelos escuros do menino não correram; pelo contrário, ele ali ficara, cabisbaixo em seu tremor. O capitão do "Águia do Norte", complacente, então ajoelhara na neve fria - colocando seu manto quente sobre os ombros arqueados do jovem. Naquele momento, entendera: não havia família para salvar o pequeno de suas gélidas mágoas. O destino, portanto, convidava a se juntarem a juventude daquele homem e a inocência daquela criança. Assim fora; os amigos agradeciam eternamente, com sorrisos e abraços sinceros.

Lembrou-se o timoneiro também das viagens por todos os mares da Grande Mãe. Com o auxílio do marujo imediato, o "Águia do Norte" podia adentrar quaisquer águas sem que os ventos abalassem seu casco. Já a liderança do Navegante - tão notável quanto a de qualquer outro membro daquela tripulação - guiava os homens como um sextante, levando-os para onde fosse. Recordara-se o marinheiro, então, de todo o perigo por que passara junto àquela criança receosa - agora um corajoso lobo do mar de músculos proeminentes.

Haviam eles, há poucos anos, obtido a façanha de atravessar as tempestades do Mar de Talus - sem escolta alguma. Sobreviveram, ademais, para contar e recontar o encontro com os dragões do Leste. Saquearam, também, cidades das Ilhas - arrebatando-lhes todo o brilho da prata. Enamoraram-se com senhoritas da União do Norte, em desafio a qualquer galanteador. Tais pensamentos conduziam para longe dos problemas a mente do Navegante, cujos olhos castanhos foram visitados por lágrimas de satisfação.

Uma constatação então pululara em sua mente, enquanto enxugava o rosto com as mangas de seu manto encardido. O sirdanês acabou por se impressionar com o poder das lembranças. Afinal, agora tinha a certeza de que cada memória sua furtava-lhe uma parte do coração. Parecia-lhe que uma fração de si prendia-se sob o jugo de cada episódio vivido. Pouco a pouco, o Navegante era consumido por sua própria vida, na medida em que a única maneira de perdurar o efêmero era através de sua imaginação já nublada.

Havia, agora, os olhos verdes de Julia. A Princesa e a Miraslávia haviam proporcionado ao timoneiro imensurável enlevo no decorrer de semanas, meses ou anos - já não sabia. Mesmo assim, o marinheiro descera a interminável escadaria do farol. Com isso, condenara ao território das memórias a vívida temporada miraslaviana. Suas pernas desfaleceram com a decisão: não permitiria que tamanha desonra preenchesse eternamente seu raciocínio. De modo repentino, veio ao Navegante a convicção de que os miraslavianos não teriam o pouco que restava de seu coração. Raptaria Julia se necessário fosse. Passaria por qualquer Guarda Real, derrubaria qualquer portão, enfrentaria qualquer diplomacia. Estava decidido.

Seus planos foram então interrompidos por um anúncio do marujo ao mastro. Estavam a uma légua da Ilha da Piniceia Menor - território insular de formato arredondado, com duas milhas de diâmetro. Seu posicionamento servia como uma das referências às embarcações que viajavam pelo Mar Leuceu, fato que abrandou a aflição do Navegante. O capitão verificou a flâmula e logo notou que o vento soprava de Norte - amurando-os por bombordo. Se os sirdaneses orçassem o "Águia do Norte", de modo a contornar a ilha, rumariam ao seu país natal. Caso contrário, arribando o navio, poderiam fixar rota de volta para a Miraslávia.

Um retorno significaria fornecer cerca de pelo menos dois meses a mais àquela viagem, pensou o timoneiro. Ele colocaria em risco a integridade de sua pátria - em troca de prosas duradouras com a graciosidade de sua eterna amada. Ainda pensando nisso, e sentindo a ansiosidade nos olhos da tripulação, demandou que as velas fossem aplainadas. Em seguida, com o leme, fez o "Águia do Norte" descrever um arco a sotavento - virando-o em roda.

A face do Navegante contorcia-se com a surpresa de seus subordinados. Sentia que seu imediato fitava-o. O receio de seu amigo não havia de todo se afrouxado, sabia. Trataram os homens do mar de seguir os passos do ilógico e de, portanto, retornar. Esperava o timoneiro que ao menos o Grande Astro não condenasse sua decisão, ausentando-se da viagem ousada. Os longos cabelos dourados de Julia seriam uma vez mais contemplados. E o Navegante, bobo, sorriu.