terça-feira, 18 de junho de 2013

Julia (VI)

— Amigo - o apreço é imenso. Quais são as boas novas? Ou serão elas más?
— Companheiro - há céu mais obscuro? O crepúsculo, as densas nuvens - tudo me assombra. Pudera os ventos cálidos acalentarem meu pensar.
— Admiro-lhe a observação, meu caro. Sente-se; desfrute da bebida. Hoje é por conta da casa.
— Imensamente grato. Estou certo de que cá nossa cevada me é de grande utilidade. Tais são as noites escuras por que rumo...
— Ressoa o que em seu pensar? Conte-me, homem. Serão os longínquos tempos - imemoriáveis? Parece-me que o Mar Leuceu invade o Setentrião uma vez mais, roubando-lhe a paz.
— Imemoriáveis? Oh, temo que não! Sinto ainda a jovem Princesa tocar-me com sua alegria sedosa, enrubescer-me as faces com o verde de seus olhos. Suas lembranças acompanham-me há muito, muito. Sei mal quanto tempo passou - seriam dez, vinte, trinta anos? Não sei; tudo o que compreendo é o espaço que já nos separa - um destino sinuoso.
— Jamais você narrou-me dias outros na Miraslávia. Temos toda uma noite, ou mesmo dias a fio, amigo. São essas suas boas, ou más, novas? Creio não só a bebida fazer-lhe bem; é também uma prosa.
— Sim, claro - sim. As árduas noites passo ao som do piar das águias. Veja - um navio e eterno acompanhante das memórias de um marinheiro distraído... Contudo, é me bem vindo contar-lhe a história. Sempre, sempre.
—  Sei bem que os amantes compartilharam da torta de maçãs. O que foi então feito do Lago Mirus?
— Oh, suas águas cristalinas brotam constantemente de meus olhos. Mais uma vez as normas de um reino venceram-me, diria, naquela ocasião. Dormitamos ao relento; Julia logo retornou aos aposentos. Disse-me ela que suas damas eram imperdoáveis, e que, tecnicamente, toda a Miraslávia exigiria cobranças de sua parte caso ocres línguas espalhassem contos.
— Entendo - imagino que cá o mesmo aconteça com a Família Real. É dos bons mexericos que vivem os nobres, arrisco dizer. Os Homens não medem suas palavras.
— Embora problemas viessem à tona, continuamos nossos encontros. A Princesa estava cada vez mais formosa; eu, mais apaixonado. Encontramo-nos quase todos os dias - fosse pelo alvorecer, fosse pela tarde. Senti-me afortunado, com toda a certeza, meu caro! Era nos separarmos, e crepitava em minhas entranhas a saudade de seus cabelos.
— E o trabalho seu? A receptividade do Rei continuou tal como foi ao primeiro dia? Os miraslavianos houveram de agradecer - fora aquela uma das poucas frotas comerciais rumo aquelas bandas.
— Miraslavianos... Soaram todos muito animados naquelas terras. Os produtos de Sirdan foram mais do que bem-vindos. Não via que poderia uma Nação tão grande viver de seu próprio sustento, inserida na ampla Natureza que nos cerca a todos. O Rei foi um homem bom.
— Pois, então, por semanas, meses encontraram-se os dois. Doce Miraslávia!
— O tempo de minha permanência já não consigo precisar com exatidão de marinheiro. O que afirmo: depois foi - tão-somente - depois. Os laços da felicidade atavam-nos um ao outro. Juntos aprisionávamos o tempo numa redoma, ignorando em plena consciência sua existência. O coração bate-me forte ao som das memórias de Julia; aprazível viagem fora aquela.
— Amigo meu, soa exasperado. Os anjos roubaram o enlevo dos amantes? Pois os deuses em constância se fazem traidores da vontade humana, arrebatando-lhes os planos.
— Hei de concordar, companheiro. Deveras arruinado fez-se o restante dos dias. Foi cúmplice não o Lago, não a taverna nem as falésias ou os montes da Miraslávia. A derrocada dos planos de um simplório amor entre mar e pedra concretizou-se numa alta torre.
— Assistem aos delírios dos mundos as elevadas construções. Ou assistem elas tais devaneios? Vejo a proximidade com o Alto Firmamento ir de encontro aos ideais humanos. O que aconteceu?
— Julia... Brota-me o pesar de tempos nunca vividos. Conto-lhe: subimos ao farol da grande cidade, o qual chamavam de Luzes dos Ancestrais. Inicialmente, nossa intenção fora admirar - quase às nuvens - a aurora miraslaviana. No entanto, chovia. Os céus fechavam-se a nossa aparente boa vontade. Assim sendo, sentamo-nos ao chão de pedra. Foi então que, mais uma vez, ouvi retumbar o deboche da lontra loura através dos tempos. O pranto dos espíritos antigos.
— Deixa-me sem palavras. Imagino que as barbas do Grande Rei enredaram seus sentimentos fortemente.
— Sim, sinto. Minha doce jovem lembrara-me a presença de um charmoso herdeiro do Leste, nos dias àquele anteriores. Suas palavras pisavam o pulsar de meu coração, caro. Anunciou ela que seu pai pretendia casá-los, a fim de selar paz duradoura com os Reinos mais distantes.
— Mordam-me as mandíbulas de Farlun! Qual a sua reação, então, se perguntar me permite?
— Levantei-me. Levantei em meus ombros a mágoa toda dos planetas. Não sei ao certo a continuidade; imagino-me correndo escadaria abaixo, sem nem mesmo despedir-me de meu lírio infante. O ímpeto espetou meu julgamento; apenas desci, e desci.
— Deixou-a no grande farol, simplesmente. Forneceu o destino oportunidades outras de tratar do impensado?
— Jamais saberei, desconfio. Recordo-me, porém, muito bem do que se sucedeu. Naquele mesmo dia, recebi em meu quarto um mensageiro de cá nossas terras. Lembra-se do assombroso Mal, espalhado por todo o Reino há alguns anos? Quando fui procurado na Miraslávia, milhares haviam já morrido por entre os picos gelados de Sirdan. Logo, por muito, faltou aos conterrâneos provisões. Esperança dentre elas - é de se temer.
— Lembro-me. Os bosques de Sirdan figuravam cemitérios putrefatos àqueles tempos. Os sobreviventes dobraram-se em compaixão pelo Eterno, e em respeito à Família Real... Agora recordo-me: o amigo voltou de uma de suas viagens bem ao findar da temporada, não é mesmo?
— O que podem as moléstias fazer dos seres vivos? Reduzem-nos a pó, arrisco. Pois retornei. A águia setentrional zarpou na mesma noite, à luz do apressado luar. As falésias, pesarosas, desaprovavam a mim e a minha tripulação - é claro. O pranto transcendental tomava ainda as densas nuvens do céu miraslaviano. Admito que aquela acinzentada atmosfera rende-me desconforto até hoje, meu amigo.
— Assim fora a despedida sua da Miraslávia. Se antes a excentricidade daquele Sol resplandecia ao alto dos montes, a névoa preencheu última os vingativos céus austrais. Vive o Navegante das Falésias as aventuranças; sorri-lhe Julia, com suas ondas douradas e cristais verde-claros!

domingo, 2 de junho de 2013

Julia (V)

Aos braços do Mirus, a aquarela rosada do ocaso solar acalentava o capitão do "Águia do Norte". O tempo circunscrevia os companheiros, completando tímidas voltas. Os sapos coaxavam seus pesares, enquanto os grilos preparavam com esmero a trilha sonora da noite. Às costas do Navegante, as águas do Lago - por sua vez - brincavam com o vento adocicado do crepúsculo. O homem, ainda sorrindo, afagou a nuca recém-contraída. Seu corpo, afinal, respondia ao estímulo lancinante de um destino mágico, todavia incerto. Aterradora era a constatação de tal sensação persistir ante as brumas da memória. Bem como muito do que a jovem princesa havia lhe proporcionado, saberia o sirdanês.

Naquela ocasião, o Navegante entendeu o que há muito ouvira em suas viagens ao Leste: bastava um momento para que se fosse amado por toda a vida. Anos, pois, jamais fariam o mesmo trabalho da transitoriedade de milésimos de segundo. Um momento, por toda uma vida - eis a verdade que na alma do marinheiro se instalava. Para os companheiros, tamanho axioma acompanhava-se do perfume de Julia. Também, o aroma das maçãs cozidas misturava-se à tal essência, de modo a formar uma explosão de alegria que abraçava as narinas do Navegante. O timoneiro, em sua breve epifania, logo percebeu o quão aprazíveis eram as notas liliáceas associadas às pomáceas. Desconfiava que até mesmo o povo das Ilhas havia subestimado a combinação para uso em seus doces perfumes.

Trajada de violeta, Julia fazia bom uso de sua beleza. O lírio infante abria suas pétalas de seda ao capitão - revelando um vestido longo, de corpete branco e saias adornadas com bordados em prata. Vestia ela luvas longas, que, púrpuras e sedosas, alcançavam as mangas alvas de suas roupas. Seus cabelos dourados estavam trançados com pequenos opalas vermelhos. Assim o trigo balouçava à companhia da flor e das pedras preciosas - e o encanto do Navegante só fazia aumentar.

Ele, por sua vez, portava uma grosseira túnica de algodão azul-escuro, com calças e botas de couro negro. Acostumado ao cotidiano do mar, o homem trazia ao corpo seu fiel, porém envelhecido manto - algo do qual agora se envergonhava. Ao menos deveria, pensou, ter considerado um barbear adequado pela manhã. Optara, contudo, por um mero e insuficiente aparar dos pelos faciais.

O marinheiro tratou de estender sua capa na grama, próximo à grande aveleira. Chegando a Princesa ao seu encontro, ele convidou-a a sentar-se - de modo a desfrutarem do anoitecer. De onde estavam - às costas o caminho que levava à cidade - o Lago parecia estender-se eternamente, até depositar suas águas no Etéreo. No horizonte, avistava-se os verdes montes do Grande Reino. Lá o Sol terminava sua jornada rumo o sono rotineiro, trazendo do lado oposto o luar e as primeiras estrelas.

Tão logo o chão apoiou-lhes os corpos, a torta foi repartida entre as frígidas montanhas hircinas e o luzir de uma nova aurora. Sirdan e a Miraslávia reuniam-se mais uma vez - como nos tempos de Jonas, o Interpelador. Pudessem os ancestrais desfrutar das maçãs de Julia; discórdias decerto seriam evitadas. A jovem, tiradas as luvas, lambuzava os dedos com o doce - estampando ainda um leve sorriso. A paz de espírito transbordava dos olhos da moça. O capitão então perguntou a si mesmo se era apenas sobre aquilo que o amor versava. De toda a simplicidade do sentimento parecia se compor a ardência de cada um dos momentos dos enamorados.

Gostaria o capitão do "Águia do Norte" de que aquele sabor jamais se esvaísse de sua mente. Contudo, a torta de maçãs miraslavianas não podia fazer perdurar seu estímulo nobre ao paladar. Os companheiros, desprovidos então do desjejum, deitaram-se na grama fresca. Próximos a eles, os galhos cheios da aveleira confundiam-se com o céu recém-estrelado, num dançar de folhas fervoroso. O movimento, pensou o timoneiro, era feito com toda a graciosidade que à Grande Mãe cabia. Mais ao alto, as pequenas avelãs quase urgiam em seu frenesi um mergulho no grande Lago.

Após um momento de silêncio, Julia apontou uma larga constelação. Curiosamente, o Navegante - acostumado a se deixar conduzir pelo Universo - a desconhecia. Sua companheira disse-lhe que aquela era a Coroa de Mirus, cuja aparição era presenciada apenas ao Sul. Rei Mirus; todo o Mundo ao menos uma vez ouvira falar de suas aventuranças. Lendas e lendas - inverossímeis, acreditava. Assim a Princesa o confirmou, ao passar a contar a história de tempos longínquos. Ela conhecera Mirus através do contato com exímios trovadores do Leuceu e por vezes sonhava que fazia parte da corte do Unificador.

A fúria das tribos saltava das palavras de Julia. Os antigos corriam de um lado ao outro - a vida pulsando-lhes nas artérias. Empunhavam os guerreiros suas longas lanças; as pontas das armas mergulhadas em sangue. O povo curvava-se ante o punho de ouro de Mirus - e os que se negassem a tal eram dilacerados. Chefes aviltantes caíam, e um vasto império era erigido sobre o calor da vitória. As falésias foram conquistadas; as campinas, invadidas; os montes, envoltos em chamas. As estrelas, como se reconstruindo a narrativa, refletiam o nascer miraslaviano em seu luzir. O Navegante podia quase escutar um brado de guerra, sentindo que o próprio Rei de Fogo - imerso no firmamento - o convidava à batalha. O coração do timoneiro batia em compasso aos fúnebres tambores marciais, e a constelação dançava em ironia.

Logo viera a tristeza. As conquistas do Rei pareceram em areia desmoronar. O rubor fugira-lhe às faces; a traição sorria-lhe, afundando-o na própria mágoa. Seu único amigo era o canto do rouxinol, e assim fora até o leito de morte. O pranto cingiu a vívida Coroa, e abençoadas através dos tempos foram as águas aos pés dos companheiros. Tamanha alegria das pessoas que ali residiam foi construída através do sangue e sofrimento - o que afligia o sirdanês. Deveras a bondade se fazia inexistente sem as trevas, pensou.

Os amantes viraram-se, um fitando o outro à luz do luar. Saudoso daquele verde-claro era o homem do mar. Um verde inigualável - eterno companheiro do "Águia do Norte". Os olhos de Julia tudo curavam. O tempo, neles imerso, não se atrevia a continuar a jornada, pois reconhecia a honra de sua singularidade. O Navegante foi feliz naqueles dias - tinha certeza. Breves e encantados dias com a Princesa... Saudades.