Aos braços do Mirus, a aquarela rosada do ocaso solar acalentava o capitão do "Águia do Norte". O tempo circunscrevia os companheiros, completando tímidas voltas. Os sapos coaxavam seus pesares, enquanto os grilos preparavam com esmero a trilha sonora da noite. Às costas do Navegante, as águas do Lago - por sua vez - brincavam com o vento adocicado do crepúsculo. O homem, ainda sorrindo, afagou a nuca recém-contraída. Seu corpo, afinal, respondia ao estímulo lancinante de um destino mágico, todavia incerto. Aterradora era a constatação de tal sensação persistir ante as brumas da memória. Bem como muito do que a jovem princesa havia lhe proporcionado, saberia o sirdanês.
Naquela ocasião, o Navegante entendeu o que há muito ouvira em suas viagens ao Leste: bastava um momento para que se fosse amado por toda a vida. Anos, pois, jamais fariam o mesmo trabalho da transitoriedade de milésimos de segundo. Um momento, por toda uma vida - eis a verdade que na alma do marinheiro se instalava. Para os companheiros, tamanho axioma acompanhava-se do perfume de Julia. Também, o aroma das maçãs cozidas misturava-se à tal essência, de modo a formar uma explosão de alegria que abraçava as narinas do Navegante. O timoneiro, em sua breve epifania, logo percebeu o quão aprazíveis eram as notas liliáceas associadas às pomáceas. Desconfiava que até mesmo o povo das Ilhas havia subestimado a combinação para uso em seus doces perfumes.
Trajada de violeta, Julia fazia bom uso de sua beleza. O lírio infante abria suas pétalas de seda ao capitão - revelando um vestido longo, de corpete branco e saias adornadas com bordados em prata. Vestia ela luvas longas, que, púrpuras e sedosas, alcançavam as mangas alvas de suas roupas. Seus cabelos dourados estavam trançados com pequenos opalas vermelhos. Assim o trigo balouçava à companhia da flor e das pedras preciosas - e o encanto do Navegante só fazia aumentar.
Ele, por sua vez, portava uma grosseira túnica de algodão azul-escuro, com calças e botas de couro negro. Acostumado ao cotidiano do mar, o homem trazia ao corpo seu fiel, porém envelhecido manto - algo do qual agora se envergonhava. Ao menos deveria, pensou, ter considerado um barbear adequado pela manhã. Optara, contudo, por um mero e insuficiente aparar dos pelos faciais.
O marinheiro tratou de estender sua capa na grama, próximo à grande aveleira. Chegando a Princesa ao seu encontro, ele convidou-a a sentar-se - de modo a desfrutarem do anoitecer. De onde estavam - às costas o caminho que levava à cidade - o Lago parecia estender-se eternamente, até depositar suas águas no Etéreo. No horizonte, avistava-se os verdes montes do Grande Reino. Lá o Sol terminava sua jornada rumo o sono rotineiro, trazendo do lado oposto o luar e as primeiras estrelas.
Tão logo o chão apoiou-lhes os corpos, a torta foi repartida entre as frígidas montanhas hircinas e o luzir de uma nova aurora. Sirdan e a Miraslávia reuniam-se mais uma vez - como nos tempos de Jonas, o Interpelador. Pudessem os ancestrais desfrutar das maçãs de Julia; discórdias decerto seriam evitadas. A jovem, tiradas as luvas, lambuzava os dedos com o doce - estampando ainda um leve sorriso. A paz de espírito transbordava dos olhos da moça. O capitão então perguntou a si mesmo se era apenas sobre aquilo que o amor versava. De toda a simplicidade do sentimento parecia se compor a ardência de cada um dos momentos dos enamorados.
Gostaria o capitão do "Águia do Norte" de que aquele sabor jamais se esvaísse de sua mente. Contudo, a torta de maçãs miraslavianas não podia fazer perdurar seu estímulo nobre ao paladar. Os companheiros, desprovidos então do desjejum, deitaram-se na grama fresca. Próximos a eles, os galhos cheios da aveleira confundiam-se com o céu recém-estrelado, num dançar de folhas fervoroso. O movimento, pensou o timoneiro, era feito com toda a graciosidade que à Grande Mãe cabia. Mais ao alto, as pequenas avelãs quase urgiam em seu frenesi um mergulho no grande Lago.
Após um momento de silêncio, Julia apontou uma larga constelação. Curiosamente, o Navegante - acostumado a se deixar conduzir pelo Universo - a desconhecia. Sua companheira disse-lhe que aquela era a Coroa de Mirus, cuja aparição era presenciada apenas ao Sul. Rei Mirus; todo o Mundo ao menos uma vez ouvira falar de suas aventuranças. Lendas e lendas - inverossímeis, acreditava. Assim a Princesa o confirmou, ao passar a contar a história de tempos longínquos. Ela conhecera Mirus através do contato com exímios trovadores do Leuceu e por vezes sonhava que fazia parte da corte do Unificador.
A fúria das tribos saltava das palavras de Julia. Os antigos corriam de um lado ao outro - a vida pulsando-lhes nas artérias. Empunhavam os guerreiros suas longas lanças; as pontas das armas mergulhadas em sangue. O povo curvava-se ante o punho de ouro de Mirus - e os que se negassem a tal eram dilacerados. Chefes aviltantes caíam, e um vasto império era erigido sobre o calor da vitória. As falésias foram conquistadas; as campinas, invadidas; os montes, envoltos em chamas. As estrelas, como se reconstruindo a narrativa, refletiam o nascer miraslaviano em seu luzir. O Navegante podia quase escutar um brado de guerra, sentindo que o próprio Rei de Fogo - imerso no firmamento - o convidava à batalha. O coração do timoneiro batia em compasso aos fúnebres tambores marciais, e a constelação dançava em ironia.
Logo viera a tristeza. As conquistas do Rei pareceram em areia desmoronar. O rubor fugira-lhe às faces; a traição sorria-lhe, afundando-o na própria mágoa. Seu único amigo era o canto do rouxinol, e assim fora até o leito de morte. O pranto cingiu a vívida Coroa, e abençoadas através dos tempos foram as águas aos pés dos companheiros. Tamanha alegria das pessoas que ali residiam foi construída através do sangue e sofrimento - o que afligia o sirdanês. Deveras a bondade se fazia inexistente sem as trevas, pensou.
Os amantes viraram-se, um fitando o outro à luz do luar. Saudoso daquele verde-claro era o homem do mar. Um verde inigualável - eterno companheiro do "Águia do Norte". Os olhos de Julia tudo curavam. O tempo, neles imerso, não se atrevia a continuar a jornada, pois reconhecia a honra de sua singularidade. O Navegante foi feliz naqueles dias - tinha certeza. Breves e encantados dias com a Princesa... Saudades.
Naquela ocasião, o Navegante entendeu o que há muito ouvira em suas viagens ao Leste: bastava um momento para que se fosse amado por toda a vida. Anos, pois, jamais fariam o mesmo trabalho da transitoriedade de milésimos de segundo. Um momento, por toda uma vida - eis a verdade que na alma do marinheiro se instalava. Para os companheiros, tamanho axioma acompanhava-se do perfume de Julia. Também, o aroma das maçãs cozidas misturava-se à tal essência, de modo a formar uma explosão de alegria que abraçava as narinas do Navegante. O timoneiro, em sua breve epifania, logo percebeu o quão aprazíveis eram as notas liliáceas associadas às pomáceas. Desconfiava que até mesmo o povo das Ilhas havia subestimado a combinação para uso em seus doces perfumes.
Trajada de violeta, Julia fazia bom uso de sua beleza. O lírio infante abria suas pétalas de seda ao capitão - revelando um vestido longo, de corpete branco e saias adornadas com bordados em prata. Vestia ela luvas longas, que, púrpuras e sedosas, alcançavam as mangas alvas de suas roupas. Seus cabelos dourados estavam trançados com pequenos opalas vermelhos. Assim o trigo balouçava à companhia da flor e das pedras preciosas - e o encanto do Navegante só fazia aumentar.
Ele, por sua vez, portava uma grosseira túnica de algodão azul-escuro, com calças e botas de couro negro. Acostumado ao cotidiano do mar, o homem trazia ao corpo seu fiel, porém envelhecido manto - algo do qual agora se envergonhava. Ao menos deveria, pensou, ter considerado um barbear adequado pela manhã. Optara, contudo, por um mero e insuficiente aparar dos pelos faciais.
O marinheiro tratou de estender sua capa na grama, próximo à grande aveleira. Chegando a Princesa ao seu encontro, ele convidou-a a sentar-se - de modo a desfrutarem do anoitecer. De onde estavam - às costas o caminho que levava à cidade - o Lago parecia estender-se eternamente, até depositar suas águas no Etéreo. No horizonte, avistava-se os verdes montes do Grande Reino. Lá o Sol terminava sua jornada rumo o sono rotineiro, trazendo do lado oposto o luar e as primeiras estrelas.
Tão logo o chão apoiou-lhes os corpos, a torta foi repartida entre as frígidas montanhas hircinas e o luzir de uma nova aurora. Sirdan e a Miraslávia reuniam-se mais uma vez - como nos tempos de Jonas, o Interpelador. Pudessem os ancestrais desfrutar das maçãs de Julia; discórdias decerto seriam evitadas. A jovem, tiradas as luvas, lambuzava os dedos com o doce - estampando ainda um leve sorriso. A paz de espírito transbordava dos olhos da moça. O capitão então perguntou a si mesmo se era apenas sobre aquilo que o amor versava. De toda a simplicidade do sentimento parecia se compor a ardência de cada um dos momentos dos enamorados.
Gostaria o capitão do "Águia do Norte" de que aquele sabor jamais se esvaísse de sua mente. Contudo, a torta de maçãs miraslavianas não podia fazer perdurar seu estímulo nobre ao paladar. Os companheiros, desprovidos então do desjejum, deitaram-se na grama fresca. Próximos a eles, os galhos cheios da aveleira confundiam-se com o céu recém-estrelado, num dançar de folhas fervoroso. O movimento, pensou o timoneiro, era feito com toda a graciosidade que à Grande Mãe cabia. Mais ao alto, as pequenas avelãs quase urgiam em seu frenesi um mergulho no grande Lago.
Após um momento de silêncio, Julia apontou uma larga constelação. Curiosamente, o Navegante - acostumado a se deixar conduzir pelo Universo - a desconhecia. Sua companheira disse-lhe que aquela era a Coroa de Mirus, cuja aparição era presenciada apenas ao Sul. Rei Mirus; todo o Mundo ao menos uma vez ouvira falar de suas aventuranças. Lendas e lendas - inverossímeis, acreditava. Assim a Princesa o confirmou, ao passar a contar a história de tempos longínquos. Ela conhecera Mirus através do contato com exímios trovadores do Leuceu e por vezes sonhava que fazia parte da corte do Unificador.
A fúria das tribos saltava das palavras de Julia. Os antigos corriam de um lado ao outro - a vida pulsando-lhes nas artérias. Empunhavam os guerreiros suas longas lanças; as pontas das armas mergulhadas em sangue. O povo curvava-se ante o punho de ouro de Mirus - e os que se negassem a tal eram dilacerados. Chefes aviltantes caíam, e um vasto império era erigido sobre o calor da vitória. As falésias foram conquistadas; as campinas, invadidas; os montes, envoltos em chamas. As estrelas, como se reconstruindo a narrativa, refletiam o nascer miraslaviano em seu luzir. O Navegante podia quase escutar um brado de guerra, sentindo que o próprio Rei de Fogo - imerso no firmamento - o convidava à batalha. O coração do timoneiro batia em compasso aos fúnebres tambores marciais, e a constelação dançava em ironia.
Logo viera a tristeza. As conquistas do Rei pareceram em areia desmoronar. O rubor fugira-lhe às faces; a traição sorria-lhe, afundando-o na própria mágoa. Seu único amigo era o canto do rouxinol, e assim fora até o leito de morte. O pranto cingiu a vívida Coroa, e abençoadas através dos tempos foram as águas aos pés dos companheiros. Tamanha alegria das pessoas que ali residiam foi construída através do sangue e sofrimento - o que afligia o sirdanês. Deveras a bondade se fazia inexistente sem as trevas, pensou.
Os amantes viraram-se, um fitando o outro à luz do luar. Saudoso daquele verde-claro era o homem do mar. Um verde inigualável - eterno companheiro do "Águia do Norte". Os olhos de Julia tudo curavam. O tempo, neles imerso, não se atrevia a continuar a jornada, pois reconhecia a honra de sua singularidade. O Navegante foi feliz naqueles dias - tinha certeza. Breves e encantados dias com a Princesa... Saudades.
Relendo🥰
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