quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Julia (VIII) - parte 1

A quilha do "Águia do Norte" cortava as ondas aos cristais do Leuceu. Uma vez mais - tanto tempo depois - a embarcação aconchegava-se à sombra das grandes falésias da Miraslávia. O capitão, distraído com a chuva torrencial de junho, ordenou o recolhimento das velas. Os remos começaram a cortar as águas, enquanto o odor de algas atingia as narinas do Navegante - poluindo-lhe em parte a boa vontade. Percebia-se estar a areia, compactada, pontilhada dos seres verde-escuros. Tempestades incessantes haviam drenado a formosidade daquele memorável litoral, pensou o timoneiro. O pingar diminuto das nuvens parecia-lhe questionar - com toda o atrevimento da Natureza - os motivos do regresso.

Debruçado na amurada a bombordo, o Navegante sentiu-se preencher de uma estranha aflição. Seus olhos perscrutavam todo o litoral, em busca de qualquer movimento por parte dos miraslavianos. Estavam eles, todavia, lá sozinhos. Ou quase sozinhos - visto que algo mais chamou a atenção do sirdanês. Incrédulo, o timoneiro constatou que uma jovem esperava-os. Era ela aos pés do paredão escarpado, esvoaçando suas saias róseas à areia cinzenta. Julia sorria-lhe, como sempre; sua voz adocicada preenchendo o pensar do pobre homem. Ele, por sua vez, tratou de pedir para o marujo ao mastro uma confirmação do que via. Afinal, ser ele iludido por sua própria mente havia se tornado quase um hábito nos últimos tempos. Algo bastante incômodo, agora percebia.

Quando o marujo desmentiu sua visão, o capitão sentiu a força esvair-se de suas pernas. Então nada ali havia, senão a chegada de alguns forasteiros liderados por um marinheiro apaixonado. Naquele momento, os intrusos beiravam a areia, e cinco homens adentraram a água para que a embarcação fosse ancorada. O "Águia do Norte" enfim se fez livre da dura jornada que arrastara suas madeiras toda aquela distância. Tendo descido do barco, o Navegante, sem pestanejar, prendeu a bainha de sua cimitarra às costas e correu falésia acima. De lá, sua ansiosidade mostrou-lhe o que homem algum gostaria de ver. Ao longe, sobressaindo-se ao mau tempo, toda a cidade era fumaça. O arauto de uma decisão ousada fora o fogo que transformava as casas miraslavianas em brasa.

A visão de Julia - presa à mente do timoneiro - desmoronava com o desespero que preenchia aquela alma insegura. O marinheiro limitou-se a chamar seus compatriotas com um assobio apressado. Em seguida, correu o mais rápido que pôde em direção aos grandes portões da cidade - ou o que deles restava. O campo girava aos seus pés, em convulsão provocada pelo farfalhar dos arbustos. A face do Rei penetrava a cabeça do Navegante. O Príncipe lançava-lhe olhares furiosos, bem como o fantasma do grão-conselheiro. Em sobreposição a eles, havia a infame lontra loura - cujas risadas drenavam toda a esperança do sirdanês.

Ao chegar à cidade, o velho capitão, lasso, apoiou-se nos escombros dos portões. O crepúsculo atingia as montanhas enquanto a chuva diminuía até cessar. A palpitação do marinheiro misturava-se à leve névoa de fuligem que encobria a região. Por alguns minutos, qualquer tipo de estímulo parecia vulgar àqueles olhos que recusavam ver além dos paralelepípedos manchados de cinza. Eis que, ao longe, um leve pranto fazia-se ouvir. O Navegante então ergueu o olhar atento e enfim se deparou com o mais vivo dos pesadelos. Tudo era tristeza. De onde estava até a base do castelo, muitas das construções não mais existiam. A capital da Miraslávia - outrora bela - estava reduzida a uma confusão de materiais em brasa e corpos ensanguentados.

O sirdanês caminhou na direção dos destroços de onde presumia vir o choro, vinte metros adiante. No caminho, sentiu suas botas pisarem algo macio. Esparramada ao chão da rua principal estava uma boneca de trapo encardida, cujos olhos de botão imploravam por companhia. O vermelho de sangue coagulado adornava o vestidinho da diminuta figura. O homem acolheu-a nas mãos e tratou de retirar a poeira de seus negros cabelos entrançados. À visão daquele brinquedo - que cabia inteiro em seu palmo - o Navegante pôde tão-somente verter uma lágrima em consideração ao acontecido. Ali permaneceu no silêncio da alma, até que ouviu aumentar o pranto. À sua direita, florescendo das ruínas de uma casa, viu então uma mão infante macérrima. O antebraço oculto abanava o ar em desespero, como para se livrar do claustro.

O timoneiro aconchegou a boneca no bolso de seu manto para poder colher a criança que via. A criatura soterrada, agora libertada, foi colocada no chão úmido. Seus olhos iam baixos, entretanto, quando o Navegante ajoelhou-se à sua altura, as estrelas foram alinhadas. O sirdanês - como num relance - mergulhou no fogo que antes cortara o coração da Miraslávia. Em meio a lágrimas, o castanho dos olhos da menina revelada avermelhava-se. O olhar dela - cada vez mais profundo - parecia recontar com triste precisão suas memórias. A garotinha arrastava o capitão para si com o negro de suas pupilas dilatadas. E, assim, o marinheiro pôde ver além das barreiras do tempo.

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