Do alto daquelas escarpas, o Navegante observava o "Águia do Norte". Parecia-lhe que - ali, na praia ancorado - o navio incorporava sua natureza de rapina. Os olhos do timoneiro enganavam-no, exibindo uma grande ave lenhosa, sacolejante ao sabor da maré matinal. Seus homens cantarolavam cantigas do Norte, enquanto trabalhavam na manutenção e descarregamento da embarcação. Aquele cantar alegre da tripulação inundava com satisfação a alma do Navegante. O capitão, afinal, poderia participar da tarefa.
O Sol, alto, começava a encurtar a sombra das imponentes falésias. Pela posição do astro, calculava-se passar já das dez horas. Pouco, então, faltava para que o lago Mirus reunisse sob suas águas cristalinas os olhos castanhos de um marinheiro aos sedosos cabelos dourados da Princesa. Era isso, e mais o sorriso inocente de Julia, que ocupava todo o entendimento do Navegante. Mesmo assim, o laço do "Águia do Norte" com o seu capitão era assaz intenso - e a companhia de seus amigos sirdaneses, deveras bem-vinda.
O timoneiro desceu o caminho sinuoso falésias abaixo, na direção de seus companheiros. Lembrou-se, por um momento, do mestre artesão com quem havia trabalhado na juventude. O bom ancião e o Navegante, juntos, haviam dado vida ao "Águia do Norte" - e, a isso, era-lhe eternamente grato. Aquela experiência, há pouco mais de quinze anos, aparentava estar tão longínqua, pensou. Porquanto o discorrer de sua vida mostrava como única possibilidade o elo entre criador e estimada criação ultrapassar as efêmeras barreiras da vida.
Caso conversar pudesse mais uma vez com seu eterno amigo, o Navegante mostrar-lhe-ia os resultados de seus esforços. Graças à sabedoria do velho, a embarcação continha características estonteantes das frotas do Leste. Imensurável fora, por isso, a inveja espargida pelos portos de Sirdan. O velame - asas do pássaro - angulava de tal maneira a facilitar o alinhamento da proa com o vento, quando necessário. Havia aqueles que ainda - recordava-se - criticavam o capitão pelo tamanho reduzido do convés, sacrificado em parte para dar espaço aos mastros flexíveis. O potencial de quatro homens, subtraídos de outros trinta, jamais, entretanto, fez-lhe falta. Afinal, podia orçar com tranquilidade o navio - além de ganhar velocidade em locais perigosos.
Um suspiro nostálgico do marinheiro, ao longe, foi recebido com um brado e um aceno de mão de seu imediato. O homem, suspenso na verga à estibordo, desceu e apontou na direção do Navegante. A cantiga adocicada interrompera-se - para dar lugar a saudações. Cumprimentaram-lhe, também, as ondas tímidas, que molharam suas botas de couro. A alma do timoneiro, como muitas vezes no mesmo dia, pisoteou as sensações desagradáveis. Como pudera ele sentir-se tão distante, não sabia. Seu coração pulsava ainda com o enlevo trazido pelas mãos de Julia - e sua mente, com a baiuca atemporal.
O movimento descendente do Sol fazia subir e descer as caixas de mantimentos e produtos trazidos. Com isso, o Navegante percebera - concluído o trabalho - que devia ser, há tempos, esperado às correntes de Mirus. Tratou logo de se despedir de seus camaradas - e correu falésias acima. Temia já os vestidos de Julia estarem amarrotados pela longa espera sob a grande aveleira. O crepúsculo infante ofuscava-lhe os olhos, e os ventos ululantes da campina acometiam-lhe os cabelos escuros. O senhor transpassou os grandes portões da cidade, bem como as casas baixas - as quais formavam arcos concêntricos circundantes ao castelo. Sua mente latejava com a lembrança onipresente da Princesa - até que adentrara os montes que conduziam ao lago.
Havia ele chegado ao seu destino - Julia, por sua vez, não. O único ente de mãos dadas ao Navegante era a serpente impetuosa que mordiscava-lhe o coração. Pestanejou - certificando-se de estar no local marcado. Árvore alguma cercava o grande lago azul, com exceção da vida milenar sob a qual se encontrava. Seus pés pisavam avelãs maduras. Haviam elas ido ao chão muito cedo, pensava. O vento, acolhedor, seduzira facilmente aqueles frutos - levados de seu aconchego ao solo rijo. Restava-lhes agora serem pisoteados e almejarem, tão-somente, correntes de ar que os levassem à distância.
O monte acolhia os raios solares ao seu sono. De costas ao Mirus, o timoneiro fitou os horizontes da cidade sombreada, ao longe. Julia confundira-o subitamente. Afinal, a jovem usara-se até mesmo de uma apetitosa torta miraslaviana como selo do encontro - e faltava-lhe, então, com o compromisso. Deveras árduo seria tomar a certeza de que teria Julia desconsiderado toda a aura intensa de sensações a qual experimentaram, juntos, na noite anterior. Havia abraçado com exaltação todas as palavras doces transmitidas pelos olhos reluzentes de seu bem-amar, ele remoía - traído, envelhecido. Outra vez a realidade batia às portas, com a lontra sarcástica da Miraslávia aos braços: uma Princesa de tamanho porte não convinha a um mundano aventureiro do mar.
Eis que um breve burburinho chegou aos ouvidos do Navegante. Podia vislumbrar parte do estandarte real balouçando à entrada do lago, e mais algumas cabeças. A maior parte destas, além da bandeirola, fez, então, meia-volta - apenas uma, no entanto, lá continuou. E, àquela cabeça dourada, somara-se um rosto fino, uma pele sedosa, espáduas altas e toda a graciosidade de uma flor violeta do Sul.
Ali estava ela, com seu sorriso alvo, jamais inquebrantável. Estava ali, também, a prometida torta de maçãs. O antes velho - agora rejuvenescido - capitão moveu, do mesmo modo, seus lábios em alegria. Um sorriso colossalmente amplo e sincero: o sinal eternizado de seus dias com Julia.
Caso conversar pudesse mais uma vez com seu eterno amigo, o Navegante mostrar-lhe-ia os resultados de seus esforços. Graças à sabedoria do velho, a embarcação continha características estonteantes das frotas do Leste. Imensurável fora, por isso, a inveja espargida pelos portos de Sirdan. O velame - asas do pássaro - angulava de tal maneira a facilitar o alinhamento da proa com o vento, quando necessário. Havia aqueles que ainda - recordava-se - criticavam o capitão pelo tamanho reduzido do convés, sacrificado em parte para dar espaço aos mastros flexíveis. O potencial de quatro homens, subtraídos de outros trinta, jamais, entretanto, fez-lhe falta. Afinal, podia orçar com tranquilidade o navio - além de ganhar velocidade em locais perigosos.
Um suspiro nostálgico do marinheiro, ao longe, foi recebido com um brado e um aceno de mão de seu imediato. O homem, suspenso na verga à estibordo, desceu e apontou na direção do Navegante. A cantiga adocicada interrompera-se - para dar lugar a saudações. Cumprimentaram-lhe, também, as ondas tímidas, que molharam suas botas de couro. A alma do timoneiro, como muitas vezes no mesmo dia, pisoteou as sensações desagradáveis. Como pudera ele sentir-se tão distante, não sabia. Seu coração pulsava ainda com o enlevo trazido pelas mãos de Julia - e sua mente, com a baiuca atemporal.
O movimento descendente do Sol fazia subir e descer as caixas de mantimentos e produtos trazidos. Com isso, o Navegante percebera - concluído o trabalho - que devia ser, há tempos, esperado às correntes de Mirus. Tratou logo de se despedir de seus camaradas - e correu falésias acima. Temia já os vestidos de Julia estarem amarrotados pela longa espera sob a grande aveleira. O crepúsculo infante ofuscava-lhe os olhos, e os ventos ululantes da campina acometiam-lhe os cabelos escuros. O senhor transpassou os grandes portões da cidade, bem como as casas baixas - as quais formavam arcos concêntricos circundantes ao castelo. Sua mente latejava com a lembrança onipresente da Princesa - até que adentrara os montes que conduziam ao lago.
Havia ele chegado ao seu destino - Julia, por sua vez, não. O único ente de mãos dadas ao Navegante era a serpente impetuosa que mordiscava-lhe o coração. Pestanejou - certificando-se de estar no local marcado. Árvore alguma cercava o grande lago azul, com exceção da vida milenar sob a qual se encontrava. Seus pés pisavam avelãs maduras. Haviam elas ido ao chão muito cedo, pensava. O vento, acolhedor, seduzira facilmente aqueles frutos - levados de seu aconchego ao solo rijo. Restava-lhes agora serem pisoteados e almejarem, tão-somente, correntes de ar que os levassem à distância.
O monte acolhia os raios solares ao seu sono. De costas ao Mirus, o timoneiro fitou os horizontes da cidade sombreada, ao longe. Julia confundira-o subitamente. Afinal, a jovem usara-se até mesmo de uma apetitosa torta miraslaviana como selo do encontro - e faltava-lhe, então, com o compromisso. Deveras árduo seria tomar a certeza de que teria Julia desconsiderado toda a aura intensa de sensações a qual experimentaram, juntos, na noite anterior. Havia abraçado com exaltação todas as palavras doces transmitidas pelos olhos reluzentes de seu bem-amar, ele remoía - traído, envelhecido. Outra vez a realidade batia às portas, com a lontra sarcástica da Miraslávia aos braços: uma Princesa de tamanho porte não convinha a um mundano aventureiro do mar.
Eis que um breve burburinho chegou aos ouvidos do Navegante. Podia vislumbrar parte do estandarte real balouçando à entrada do lago, e mais algumas cabeças. A maior parte destas, além da bandeirola, fez, então, meia-volta - apenas uma, no entanto, lá continuou. E, àquela cabeça dourada, somara-se um rosto fino, uma pele sedosa, espáduas altas e toda a graciosidade de uma flor violeta do Sul.
Ali estava ela, com seu sorriso alvo, jamais inquebrantável. Estava ali, também, a prometida torta de maçãs. O antes velho - agora rejuvenescido - capitão moveu, do mesmo modo, seus lábios em alegria. Um sorriso colossalmente amplo e sincero: o sinal eternizado de seus dias com Julia.
muito legal...ansioso pelos próximos capítulos e o desenrolar da história!
ResponderExcluir