segunda-feira, 18 de março de 2013

Julia (III)

O interior de uma fortaleza suntuosa abandonada, erguida em meio às montanhas verdes exuberantes do Leste. Naquele momento, o Navegante bem poderia - a tal imagem - equiparar as dimensões atribuídas a sua mente. A espontaneidade de Julia o havia surpreendido. Afinal, um homem de sua classe não merecia receber da Princesa de um dos Grandes Reinos uma apetitosa torta de maçã prometida. Muito menos, lembrou o capitão, num encontro a sós à beira do Lago Mirus. De qualquer jeito, seu consciente esvaziado erguia a felicidade ao alto - para além das trevas da amargura. Quão oportuno o destino se fazia, pôde pensar.

O bater das grandes portas de madeira da taverna logo dissipou o aparentar cada vez mais místico e atemporal da situação. O grão-conselheiro do Rei adentrou o local de festividades daquela noite, buscando Julia com o auxílio de sua preocupação exacerbada. Uma das sobrancelhas do homem franzia-se, e ele caminhou rapidamente na direção dos companheiros. Era um jovem esguio e sério, porém de feições amigáveis - que transmitia sabedoria na medida apropriada. Após uma reverência apressada, o servo não aguardou a manifestação da princesa. 

O conselheiro tratou logo de disparar contra sua senhora o motivo de estar ali - antes que a maior parte da corte despertasse. Decerto Sua Majestade havia dado autorização ao casal de ali continuar suas conversas dado o término da celebração. Adentrar, no entanto, a madrugada - até que os primeiros raios solares fossem avistados - seria demais, segundo o conselheiro. As damas de Julia poderiam danificar a imagem da moça com suas línguas ferinas. Ademais, seu pai certamente desconfiaria das boas intenções daqueles comerciantes sirdaneses.

Enquanto o grão-conselheiro falava, a princesa não desviara os olhos do Navegante. Ao final do falatório - antes que não mais se fitassem - foi possível ao capitão sentir uma nova dimensão erguida a partir das pupilas de Julia. Naquele mundo criado para os companheiros, apenas, poderiam ser felizes indefinidamente - sem que a dura realidade abalasse a primavera eterna de seus corações. 

O receio, no entanto, pisara o deleite da prosa com suas grossas botas de cavalgar. Assim, a vontade da Princesa do Grande Reino da Miraslávia foi enfim vencida pela antiga tradição real. Juntos - a menina e o grão-conselheiro, símbolo do findar daquele episódio doce - encaminharam-se, então, de volta ao castelo.

O timoneiro do "Águia do Norte" ergueu os olhos à janela mais próxima. Sua mente identificava, lentamente, os novos estímulos da taverna e do céu reluzente. O homem taciturno notou que as luzes da manhã já invadiam o bar - como se pedindo bebidas, de modo alegre, ao taverneiro. Uns poucos camponeses pestanejantes sentavam-se em seus lugares habituais, conversando de modo ainda sonolento. Era chegada, todavia, a hora de abraçar mais uma vez o mundo - decidiu o Navegante.

Mesmo cedo, a estreita rua principal encontrava-se assaz lotada. Feirantes vendiam seus produtos, jovens enamoravam-se em suas varandas, senhores juntos elaboravam suas teorias, damas espalhavam seus mexericos. Parado à porta da taverna, o sirdanês reafirmou mentalmente sua onipresente constatação de serem os miraslavianos extraordinários. Parecia-lhe que a Miraslávia era o berço do bem-viver. Claramente, seus habitantes ocultavam tal segredo da vastidão de um planeta enfermo. Pior, pensou aquele homem do mar: escondiam seus ricos tesouros imateriais e atemporais do ímpeto dos assombrosos chefes bárbaros.

Embora fosse comum que um transeunte viesse-lhe de encontro, o capitão sentiu-se eternamente intocável. Como se congelado no êxtase da noite, seu coração fazia ainda erguer ondas terríveis contra o forte navio de sua caixa torácica. Mesmo assim, o Navegante permanecia sereno - porquanto os cristalinos lagos verdes do olhar de sua dama lhe inundavam o pensar. O estandarte real, oscilante ao alto da fortaleza e da feira central, fazia alusão ao tremeluzir do encanto dos cabelos dourados da Princesa. A lontra loura das bandeiras parecia, com sua expressão austera, menoscabar os pensamentos do marinheiro. O animal parecia estar certo de que jamais a nobre e o explorador pudessem se amar.

Sentindo os paralelepípedos acinzentados da estrada que conduzia às falésias, o timoneiro recordou-se das razões de ali estar. Sabia que o trabalho mercante não deveria ser procrastinado. Ao invés de esperar o findar da longínqua tarde mergulhado no ócio, bem poderia, até lá, organizar as mercadorias e o navio para a audiência com a Realeza - e foi o que decidiu. Ancorado na praia, o "Águia do Norte" esperava seu companheiro de toda a vida. O navio era não só a materialização de suas aventuranças; era sua casa, seu confidente, sua proteção. E, tinha certeza, assim seria pelo Infindável.

O Navegante empurrou delicadamente os que passavam por seu caminho, em direção ao portão principal da cidade. Passou as casas baixas, de amplos telhados de mogno, até adentrar a campina verde - ofuscada pela luz matinal. O céu azul mais uma vez sorria-lhe, afinal.

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